quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

O exército de Paula, José, Rodrigo, Lucas, Willian e Juliano

Grupo de voluntários decide pintar Santa Casa de C. Mourão


De que vale a vida senão ajudar o próximo? Uma vida fútil, com objetivos financeiros, materiais, mas sem a emoção em contribuir com a própria comunidade? Isso vale a pena? Se acredita que pode fazer mais pela sua própria raça, sem pensar em dinheiro, então aliste-se ao grupo de voluntários da Santa Casa.

Dilmércio Daleffe

No dicionário a palavra voluntário significa uma pessoa que age de acordo com sua própria vontade. Um ser caprichoso, voluntarioso. Alguém que se alista espontaneamente num exército sem obrigação a nada, a não ser, com o bom senso. Sendo assim, pode-se considerar Willian, Lucas, Juliano, Rodrigo e José como verdadeiros voluntários da Santa Casa de Campo Mourão. Desde a última semana, eles doam parte de seu tempo de lazer para contribuir gratuitamente com a pintura de algumas alas do hospital. Pessoas tão diferentes umas das outras, mas, ao mesmo tempo, com qualidades tão próximas.




Coração grande, atitude, senso coletivo, audaciosas, generosas, solidárias. Assim são algumas características de pessoas voluntárias. Juntas, elas podem minimizar os dias ruins que uma comunidade vem passando. Sozinhas, são capazes em diminuir o mal dos homens. Têm a força para transformar o planeta numa corrente do bem. Rodrigo Lucas Hort deixou seu domingo de lado para pegar no pincel em prol de pessoas que ele nem conhece. Como auxiliar administrativo da Coamo, decidiu ajudar o ambiente da Santa Casa ficar mais bonito. “Acho que se os doentes vierem para um local feio, chegam até a piorar. Mas ao contrário, se estiverem num ambiente bonito podem até melhorar”, acredita ele.

Aos 24 anos, ele ainda é bastante jovem para entender o mundo. Mas aprendeu bem cedo a ter atitude. O bom senso em favor de sua comunidade veio antes mesmo da chamada “experiência” de vida, a mesma que muita gente por aí julga ter. “Eu não tenho nada a ver com pintura. Trabalho numa empresa para ajudar a administrá-la. Mas sei que mesmo assim pude contribuir um pouquinho com o hospital”, disse. Ele lembra que faz parte de um grupo de ciclismo da cidade. E foi lá onde reuniu Willian, Lucas e Juliano para também contribuírem com o voluntariado da Santa Casa. Juntos, os quatro doaram parte de seu domingo às paredes da “Santinha”. “Me fez muito bem ajudar. Neste próximo domingo vamos retornar e colaborar novamente”, disse. Mais uma vez, o coração grande falando mais forte.

José Alberto Zambonini tem 52 anos. É pintor profissional há 15. Também decidiu abrir o coração a uma justa causa. “Deus sempre foi tão bom comigo. Agora tenho que retribuir tudo o que ele vem fazendo por mim”, revela.  “Me sinto bem em ajudar. Minha esposa faz tratamento na oncologia e por isso vejo a necessidade em colaborar também”, disse.  Conhecido por “Alemão”, José é exemplo vivo de que ainda é possível acreditar no voluntariado. Segundo ele, estender o braço à comunidade, de forma honesta e gratuita, não é feio. Ao contrário, é digno. Um gesto bonito, de grandeza. Afinal, de que vale a vida sem ajudar o próximo?

Paula Renata Domenici é uma assistente social vinculada à Santa Casa. Bonita por dentro e por fora, a menina é uma guerreira. Ela sabe que a instituição não possui recursos para as benfeitorias. Por este motivo, ela arregaçou as mangas e vem coordenando os voluntários. Aos 29 anos, é uma apaixonada pelo hospital. E não ganha a mais por isso e, muito menos, tem projeções políticas. No fundo, também mantém um coração grande, voluntário, esperançoso. “Temos algumas pessoas da sociedade que nunca falaram não aos nossos pedidos. E é através delas que temos conseguido o sucesso para pequenas reformas”, disse.

O trabalho começou ainda em 2016, quando precisavam melhorar a pintura da ala pediátrica. Algumas pessoas apareceram, ajudaram a pintar. Outras deram as tintas. A ala está perfeita. Mesmo concluído o trabalho, as pessoas continuaram aparecendo para ajudar. Então, veio a ideia em continuar a pintura a outras alas. Neste momento, a ajuda é para a recepção do SUS e a triagem oncológica. “Se pudermos receber mais ajuda, vamos seguir por todo o hospital”, disse. Segundo ela, se fosse para a instituição bancar toda a pintura, seriam necessários cerca de R$100 mil. “Esse dinheiro é impossível no momento. Por isso a importância do voluntariado. E eles nunca nos abandonam”, revelou.

Paula informa que as tintas ainda são necessárias. O que ganharam está no fim. Mas quem puder fornecer mais material basta levar até ela. Assim como novos voluntários podem se apresentar. Todos são bem vindos. De acordo com ela, existem centenas de “corações grandes” em toda a região. Dia desses um homem de Terra Boa esteve no hospital. Ele queria colaborar, mas não sabia como. Então Paula deu uma volta com ele pelas alas. Notou que em alguns quartos não havia ventilação. O calor era grande. Foi aí que ele olhou para ela e concluiu: “Vou comprar 16 ventiladores para estes apartamentos”. Um dia depois o homem trouxe o dinheiro e a Santa Casa comprou os ventiladores. Ele preferiu não ter o nome revelado. Trata-se de um voluntário, também de coração grande. “Assim como tantos, ele é um anjo do hospital. Temos muitos, mas queremos mais”, disse Paula. Ela também possui um objetivo em recrutar um exército de voluntários ao hospital. “Pretendemos criar um grupo de ajuda. Quem desejar ser membro do time basta nos ligar”, explicou.

O exemplo e a força de todos esses voluntários é apenas mais um reflexo da própria instituição. Lá atrás, ainda na década de 80, alguns empresários e médicos da cidade se uniram para transformar a Santa Casa. Como não havia dinheiro, voluntariamente, decidiram fazer um trabalho de formiguinha. De casa em casa foram pedindo tijolos, pedras, areia, cimento e tudo mais que pudessem doar. E foi desta maneira que o atual prédio do hospital começou a ser levantado. Ou seja, voluntários iniciaram o sonho. Hoje, voluntários continuam o sonho. Amanhã certamente novos voluntários terão que participar. Em suma, a Saúde neste país é apenas mais uma piada de mau gosto. Aqui não existe dinheiro, mas sobram doentes e filas.

O que levar:
Cor erva doce – acrílica lavável – acetinada
Rolos
Pincéis
Lixas
Onde levar: Hospital Santa Casa de Campo Mourão
Telefone: 3810-2100 – ramal 2105

Falar com Paula ou Valéria

domingo, 25 de setembro de 2016

Jorge, o banco e a sombra da araucária




Dilmércio Daleffe

Sob a sombra de uma enorme araucária, sentado sobre um pequeno banco improvisado de madeira – que ele mesmo construiu - Jorge de Campos descansa o corpo de 74 anos. Ele passa as tardes a pensar sobre a vida às margens da rodovia que liga Pitanga a Campo Mourão, quase todos os dias. Trata-se de um local cativo. É ali onde vê o tempo correr. Como o vento que passa trazendo suas memórias. Com o apelido de “Jorge Borracheiro”, ele é pessoa das mais carismáticas. Jorge tem boa prosa. Fala baixinho, num arrastar de sílabas. Sussurra as palavras. É até gostoso escutar.

Enquanto o tempo passa à maioria dos humanos, ele parece ter se esquecido de Jorge. Tamanha experiência de vida ainda não se compara a sua enorme vontade em viver. Assemelha-se a um menino contando as histórias pelas quais passou. É instruído, tem bom vocabulário e nem aparenta ter nascido nos idos de 40. Quase não assiste a tv e acredita que o país jamais irá melhorar. “Me diga como isso aqui pode ser melhorado”, questiona.  

Chapéu de palha surrado, cachimbo na boca, cabelos e barba longa, unhas por fazer, Jorge até remete a um princípio de medo. Mas ao conhecê-lo, o medo é trocado pela surpreendente magia da complexidade do ser humano. O cara é um reduto de boas histórias. E os causos tornam-se prazerosos ao serem ouvidos. Jorge é a prova de que o homem, antes de ser julgado, deve ser ouvido.

“Tive tantas mulheres na vida que não consigo nem lembrar dos nomes”, revela. Mesmo assim afirma não ter nenhum filho. Hoje, passados os anos, ele vive numa casa modesta aos fundos de uma borracharia à beira da rodovia. Mora com uma mulher – mais nova – e com a filha dela. Aposentado, garante não faltar nada a sua mesa. Ganha pouco mais de R$800. Destes, R$70 são para o fumo. Ele reclama que anda sem fôlego. Mas também, fuma desde os quatro anos de idade. “Meus pais me ensinaram”, disse. Falando em pais, sua mãe – Aurita – está viva ainda. Possui 95 anos, mora a dois quilômetros dele e é bastante encrenqueira. “Ela é brava demais”, confirma.

Jorge nasceu em Pitanga. Seus pais vieram do Rio Grande do Sul ainda com a cuia na mão. Na cidade, ele andava até 15 quilômetros a pé para estudar. E foi assim, com determinação, que aprendeu a ler e escrever. Trabalhou de tudo. Começou na roça ao lado de 12 irmãos. Depois foi serralheiro, abriu estradas e atuou por algum tempo junto à delegacia de Pitanga. Era lá – nos anos 60 – quando colaborava em prender bandidos da região. Com a fama de “ordeiro”, uma vez foi segurança de um bailinho local. Ao aconselhar um jovem sobre a bebedeira e arruaças, levou nove tiros. Nenhum deles o acertou.

Talvez sua crença em Deus o tenha protegido até hoje. “Eu não gosto de igreja. Mas acredito muito em Deus e em Nossa Senhora Aparecida”, disse. Atualmente recebeu o apelido de “Maridão”. E ele até gosta. Afinal de contas está ao lado de uma companheira bem bacana. “Ela me veste, me da de comer”. Tranquilo com a situação, já vão quatro anos sem cortar a barba. E as experiências de vida o ensinaram a não temer nada. Muito menos a morte. “Não temo a morte. Mas quando vejo alguém carregando uma foice perto de mim eu já fico cabreiro”, disse.


Como aposentado, Jorge passa os dias a pensar. Aproveita a vida com a companheira e, quase sempre, vai ao banco de madeira refletir sobre tudo. Ao lado da amiga araucária, pede licença para deleitar suas sombras. Acende o velho cachimbo e assim, vai colecionando amigos que por ali passam. Na verdade, Jorge acabou transformando-se num contador de boas histórias. Mas afinal, pra que serve o tempo senão formar o homem para repassar suas experiências? No caminho escolhido por ele próprio, Jorge continua sentado em seu banquinho. Vê os carros passarem pela estrada. As pessoas andarem pela calçada. E o tempo? O tempo se esqueceu de Jorge.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

E a tocha não apagou...

Dia 29 de junho de 2016. Um dia histórico para Campo Mourão. Hoje, a tocha olímpica passou por aqui. Quando passará novamente? Provavelmente nunca mais.









































quarta-feira, 2 de março de 2016

Humanos

Após 20 anos decidi, finalmente, por em prática o projeto "Humanos". Nada mais é que um resumo de toda a obra por mim clicada até hoje. Em fotos preto e branco, são imagens que traduzem uma única observação: o homem, o ser humano. Crianças ou adultos, negros ou brancos, as pessoas por mim registradas indicam o mundo em movimento. Elas não param. Buscam algo o tempo todo. As fotografias tentam mostrar momentos quase não vistos pela maioria das pessoas: Humanos desprezados ou simplesmente invisíveis. Tenho que confessar: sou fã do ser humano. Ele é responsável por todas as desgraças do planeta. Capaz de matar e tirar a própria vida.  Mas ao mesmo tempo, também é dotado de um sentimento legítimo: amor. Então, através de fotografias quase sempre urbanas - para alguns é conhecido como street photography - pude enxergar "humanos" diferentes. Fotos do México, Chile, Argentina e Brasil. E, antes de estarem no livro a ser publicado ainda este ano, os apresento uma pequena parte agora!